A neuroplasticidade e flow na recuperação de lesões no cérebro e no sistema nervoso
Há poucos anos, passei por uma experiência que mudou minha perspectiva de vida. Sofri um grave acidente de moto. O impacto resultou em uma fratura exposta na canela esquerda, o que me custou um mês de internamento hospitalar e outros quatro meses preso à cama.
Durante esse período, perdi grande parte da sensibilidade da perna e do pé. Eu simplesmente não conseguia distinguir a pressão ou os estímulos sensoriais na região; o cenário visual era composto apenas por dores e incômodos constantes.
Esse processo me trouxe a clareza necessária para entender, na pele, a diferença exata entre uma lesão física e uma falha na função cognitiva. Como a perna sofreu alterações profundas devido ao trauma, perdi muitas terminações nervosas. Com o tempo, vi meu sistema nervoso se reorganizar e elas voltaram a funcionar de outra forma.
Hoje, a percepção de pressão nos dedos do meu pé esquerdo é muito parecida com a do pé direito. É como se eu olhasse para duas pernas direitas, embora eu saiba a localização exata de cada estímulo. O que sobrou foram pequenos espasmos, similares a choques — uma comunicação de rádio com ruído de fundo.
Outro fenômeno interessante que ilustra essa dinâmica é quando meu pé esquerdo parece “ouvir a conversa” entre a mente e o pé direito.
Quando ando descalço e piso primeiro com o pé esquerdo fora do tapete, a sensação inicial é confusa. Mas, assim que coloco o pé direito no piso frio, a mente processa a temperatura exata e, no mesmo instante, o pé esquerdo passa a refletir a mesma informação. É fascinante ver o cérebro espelhar a sensação.
Passei por várias fases no tratamento, e todas elas trouxeram à tona a combinação entre neuroplasticidade e flow. Ficou nítido que recuperar os movimentos, a funcionalidade e a carga emocional do trauma dependia diretamente de ativar essa capacidade de regeneração do cérebro através de um estado de foco absoluto.
Essa vivência me levou a estudar o assunto sob uma nova ótica nos últimos anos. Hoje, quando atendo casos parecidos no consultório, consigo olhar para o cliente e entender exatamente o que ele está enfrentando.
Para trazer ainda mais clareza sobre como a neuroplasticidade e flow operam juntas, vale a pena analisar um caso de grande repercussão no esporte mundial.
Um ano após grave lesão, Owen Wright volta ao topo no surfe
Em 2015, o surfista australiano Owen Wright sofreu uma grave concussão cerebral nos treinos para o Pipe Masters, no Havaí. O trauma foi tão severo que ele perdeu toda a temporada de 2016 para tratar a hemorragia na cabeça.
Nos bastidores do esporte, o cenário era sombrio. Ninguém sabia ao certo se ele carregaria sequelas permanentes no cérebro ou se conseguiria voltar a olhar para o mar de forma competitiva. Os médicos recomendavam repouso absoluto.

Contra todas as expectativas, Owen Wright iniciou um delicado processo de recuperação. Ele precisou reaprender a surfar do zero. O atleta, que antes dominava as ondas mais pesadas do mundo, persistiu e retornou à elite do esporte em 2017, conquistando o título na etapa de Gold Coast.
“Isto é muito surreal”, disse Owen na época, emocionado. “Meu melhor amigo, Wilko, me apoiou muito durante a lesão e esteve ao meu lado em cada degrau que tive de subir para chegar até aqui.”
Como o estado de foco potencializa a mente
Em suas redes sociais, Owen descreveu perfeitamente a sua primeira sessão de surfe durante a recuperação. O relato joga luz sobre o ponto exato onde a neuroplasticidade e flow se encontram:
“Eu fui para a minha primeira sessão de surfe há alguns dias. Foi a coisa mais divertida do mundo. O engraçado é que… eu não conseguia ficar em pé. As ondas estavam pela altura do joelho, mas a sensação do drop era como se eu estivesse descendo uma onda de 10 pés em Teahupoo. Quando terminei, eu estava tão feliz que soltei um grito e comemorei.”
Cinco minutos depois, na praia, a mente consciente de Owen começou a comparar o seu desempenho atual com o passado, o que gerou frustração. Foi aí que ele virou a chave para o aprendizado real:
“Estar focado em comparar o que eu costumava fazer, ou o que os outros conseguem fazer, é negativo para o presente. A emoção negativa dificulta a evolução e a felicidade. É simples… basta praticar cada vez mais.”
Quando a pressão por resultados foi deixada de lado, o atleta acionou o estado de presença pura. Ele não estava competindo; estava imerso no processo de surfar por puro prazer. Essa mudança de perspectiva blindou sua mente e acelerou a criação de novas vias neurais no cérebro.

Vamos analisar alguns pontos da fala acima de Owen, em que o FLOW está ajudando a neuroplasticidade.
“No momento após o acidente Owen tinha dificuldade em formar frases e movimentos”
Nesse trecho é claro que o acidente interrompeu atividades cognitivas e motoras e que ele teve que ficar meses de fisioterapia para iniciar a Neuroplasticidade.
“Foi a coisa mais divertida do mundo. “Engraçado é que… não me conseguia colocar de pé.”
Agora entrou o FLOW como parte do tratamento e desenvolvimento da neuroplasticidade. O Surf não era apenas uma atividade que realizada em alto nível tinha uma relação com sua felicidade e disparos para ela. O que ele acha engraçado é estar feliz mesmo com toda a dificuldade e nesse momento ele não era o profissional, apenas alguém tentando surfar e se divertindo com o processo.
“Comecei a questionar por que não conseguia. Isso começou a arruinar a minha experiência e mudou a forma como me estava sentindo”.
Nesse momento após o momento do FLOW
ele inicia uma análise consciente sobre o seu estado atual, seja cognitivo e físico sobre o seu papel social. Afinal ele não poderia se sentir apenas feliz em estar no mar e surfar, ele era um profissional do esporte com metas e resultados a realizar.
“Isso fez-me perceber que a evolução pessoal é necessária, mas que estar focado em comparar o que costumava fazer, o que os outros conseguem fazer ou o quão bom é, é negativo para o presente. Emoção negativa dificulta a evolução e a felicidade. É simples… basta praticar cada vez mais”
Agora ele tem o entendimento necessário que o FLOW está ligado a sua neuroplasticidade, o quanto mais ele conseguir se concentrar em momentos únicos de felicidade e flow, maior e mais rápido será o seu desenvolvimento.
“Só quero entrar no mar e surfar”.
Aqui entra a sua chave para disparo do FLOW, apenas realizar o que irá dar pra
zer para ele, esse é o seu principal objetivo para realizar o que faz: Surfar.
“Saber que competir não é um propósito em si”.

O olhar terapêutico: Potencializando resultados
O caso de Owen Wright deixa uma lição clara: embora a neuroplasticidade seja uma capacidade natural do organismo, ela é massivamente potencializada quando entramos em estado de total absorção e presença.
A neuroplasticidade não funciona apenas como um “conserto” mecânico que o corpo realiza após uma quebra ou acidente. Ela é uma ferramenta viva de desenvolvimento e evolução.
Quando unimos a neuroplasticidade e flow, limpamos os ruídos da carga emocional e abrimos caminhos para que a mente construa novas soluções e recupere a qualidade de vida. Através do trabalho focado com Hipnose clínica e PNL, é possível acessar esses estados profundos de transformação para reconfigurar a forma como o seu cérebro processa o corpo e as emoções.
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